Inventário

Quando eu morrer eu sei que não vou para o céu, pois durante minha vida não perdi meu tempo com imagens de barro, nem com cultos ou missas em um sábado de sol ou domingo de chuva.

Quando eu morrer vou voltar a minha origem normal, meus tecidos serão decompostos por infinitas bacterias e o meu sangue irá virar água de chuva. Em síntese serei apenas átomos.

Quando eu morrer não quero lágrimas, não quero mensagens de agradecimento ou orações que se resumem em perda de tempo. Eu quero ser cremado e minhas cinzas jogadas ao mar.

Quando eu morrer deixarei de existir como matéria, mas minha arte ou tudo que dediquei a ela, irá sobreviver na vã brevidade do tempo.

O deus Pedra

Estou do lado onde deus não existe, onde sua quimera existência não pode ser provada. Eu vivo nas ruas, nos becos escuros com esgoto a céu aberto. Na mulher grávida e abandonada pelo marido, e que bradou nas redes durante o dia defendendo a família e a total criminalização do aborto.

Eu sou aquilo que você não pode ver, eu sou a lágrima salgada de alguém que chorou porque não tinha o que comer, sou o homem que sofre preconceitos diários, e que morre esperando um milagre que caía dos céus, pois aqui na terra já não resta mais esperança.

Eu sou o crente vítima de estelionato, e que vai ao culto sem ter o que vestir, mas que tem esperança de crescer e de humilhar os seus semelhantes para que assim eles possam ver o quanto o seu deus é grande, o quanto por deus ele está protegido.

Eu sou o homem que não tem mente para raciocinar, que acreditam em um deus pedra, pois “Se ele fizer é deus, e se ele não fizer continuará sendo deus” assim os homens se resumem em pedras desgastadas pelo o tempo, como o seu deus perdido na imensidão do espaço.

Alegria em meu coração

Apesar de tudo eu continuo, mesmo sabendo que não queres mais me ver. E o sol há de brilhar em meu rosto quando despontar no horizonte, quando os pingos de chuva apagarem nossos passos que deixamos sobre a areia do mar.

Eu continuo a viajar, seja para fugir de mim ou para fugir de nós, porque ao fugir de mim sei que estou solitário, como um barco a deriva no meio do mar, como uma folha desgarrada da árvore pela força do vento, e o vento vai secando minhas lágrimas, o vento sabe o quanto eu estou desaparecendo aos poucos.

E eu me ponho na estrada, talvez de volta para onde não tivesse saído, eu volto para o meu abrigo, que é lá onde sempre estive, é lá onde somos todos iguais.

Tuas palavras guardo na memória, e hora ou outra vou ao jardim te buscar, revendo as plantas que me destes, os cactos e as orquídeas, até as rosas que secaram porque não soube cuidar, tudo eu guardo, porque é revendo isso, que eu te encontro aonde não podes estar.

Suave amor

Te ver é um vício diário, mesmo que saibas que eu não te vejo em um sentimento presente, mesmo que de mim afasta teus afagos e teus beijos de bom dia.

O meu lance de perigo é te sentir em um dia, escondida em um carro, distante dos olhos da humanidade, distante de quem procura sujar o nosso nome.

Minha maior aventura é te sequestrar desse teu mundo, te sentir em meus braços, e quando estivermos juntos perguntarmos o que faremos depois.

Sei de tua personalidade forte, e sei que quando te machucam você foge para não ter um reencontro, mas acho que ainda me amas em algum lugar desse teu coração, desse seu amor escondido do mundo.

O Pantanal em chamas

O Pantanal está queimando, ardendo como brasa, matando plantas e animais e jogando toneladas. O ar está insustentável, o governo está insustentável, mas vamos caminhando com fumaça nos pulmões.

A Amazônia desaparece a cada árvore derrubada, o agronegócio já ocupa o Madeira e o Solimões, a cada quilômetro eu caminho e fujo das queimadas, a cada quilômetro eu observo meu futuro de carbono.

E a chuva está chegando escurecendo o horizonte, carregada de fuligem, corroendo os carros e caminhões, possui um cheiro de enxofre e parece chuva ácida, vem trazendo o veneno para a mesa de refeições.

Quando vestia-se de girassóis

A procura do amor verdadeiro ela saiu sem destino, queria as flores do campo, queria apenas os lírios. Sonhava com o pôr-do-sol da casa de seus pais, queria algo que acalmasse as dores acidentais.

E para ela o amor não era algo inerte, machuca e dilacera tudo a sua volta, como um punhal rasgando toda a carne nos músculos, que sangra e tritura quando a noite vai embora.

E mesmo que ela fuja de mim quando eu a vejo, seus beijos ainda guardo nos lábios como um encanto, na época que dormia sonhando com o mundo, na época que chamava meu nome em um susurro.

Pensamentos do mar

Setemos à beira-mar e vamos ver o pôr-do-sol. Da vida pretendemos não lembrar de nada, pois, em certas ocasiões as lembranças cortam mais que aço e que palavras.

Por alguns minutos fitemos o horizonte e vamos lembrar de história, vamos pensar quantas vidas passaram por esse lugar, deixando seus lares ou forçados a cruzar esse caminho marítimo.

Nessa hora, a tarde já está indo embora e a noite vem com seu silêncio forçando os seres humanos a pensar na vida ou perder a noite que é para o sono de tanto pensar no amanhã.

Agora a humanidade nos força a irmos para casa, a humanidade nos força a voltarmos a nossa rotina catipitalista, precisamos dormir, acordar e consumir para que toda a sociedade continue a girar.

O Pseudocristão

Estão em todos os lugares das cidades e esquinas brasileiras, não tem opinião própria em sua maioria, não são um exemplo de vida, mas acham que detém toda a moral e os bons costumes de uma sociedade regrada.

Acreditam em mitologia hebraica, acreditam que só a Bíblia detém a verdade para tornar o homem educado, nunca leram sequer um versículo; deixam para que outros leiam por eles.

São burros por natureza, e o pastor de sua igreja é quem detém o chicote, acreditam em vida após a morte, acreditam que podem julgar qualquer pessoa.

São contra as drogas, os jogos, o álcool e o crime, praticam tudo isso longe dos holofotes, e querem deter o poder, querem que sua igreja se sobressaia sobre as demais, querem sufocar as religiões de umbanda, querem demonizar tudo a sua volta.

São animais sem cérebro e precisam de alguém para guiá-los, estão se espalhando como ratos por todo o celeiro, estão destruindo nossa cultura, estão contaminando nossa sociedade.

Astecas

Quando chegaram estavam em farrapos! Fétidos e cansados, tinham como objetivo apenas ouro e riquezas, e nos chamaram de selvagens, por não adorarmos seu deus e possuirmos sua cultura, trouxeram um poderoso exército invisível e invencível aos nossos olhos.

Nos colocaram no solo apodrecendo pela varíola, e tomaram nossas terras matando todos nossos irmãos, destruíram nossos templos, e colocaram um símbolo que diziam estar cheio de amor e justiça, esse símbolo era a cruz, o amor e a justiça foi uma grande utopia para conquistar nosso povo.

A Sociedade

A sociedade está pronta para nos devorar, com seus sussurros de preconceitos, com seu falso moralismo religioso que exige algo dos outros que ela mesma não pode cumprir.

A sociedade anda esmagando os que não tem posses, e bajulando aqueles que os oprime, a sociedade anda bancando a super justa e linchando seus miseráveis, a sociedade é mais puta que qualquer mulher que ela julga não pertencer a sua classe.

A sociedade quer ir a missa ou aos cultos durante o domingo para garantir assim um lugar no paraíso, e reencontrar seus antepassados, e no interior de seus quartos se empanturrar com a hipocrisia de seus julgamentos em público.

A sociedade é injusta, e continuará sendo injusta com todos os indivíduos solitários, a sociedade aspira melhoria e progresso, mas alimenta em seu interior os mais puros atos de barbárie.