A luta continua

A luta continua, pois a luta não parou nas estepes da Rússia, das mães que exigiam pão e paz para seus filhos que pereciam aos olhares do regime Czarista. A luta continua e está manchada com o sangue das socialistas alemãs e com o sangue das inglesas que lutaram pela redução da carga horária de trabalho e por igualdade em direito ao voto. A luta continua, com todo o fogo e toda a cinza dos corpos carbonizados na fábrica Triangle shirtwaist em Nova York, a luta continua mesmo quando a legislação vai contra, e resiste ao esmagamento do patriarcalismo que agora em tempos de paz ressurge para atrasar o progresso. A luta continua por aquelas que morreram em campos de batalha para defender a liberdade de seu país e de seus filhos no Velho e Novo Continente, das mulheres que resistem aos estupros de seus corpos na Índia e no silêncio das casas por todas as cidades. A luta continua na resistência da pele negra de Rosa Parks e no fuzil de Lyudmila Pavilichenko, na empreitada por amor na caatinga de Maria Bonita, e na crítica social através de tinta a óleo eternizado nas telas de Frida Kahlo, e assim, todas elas resistem nessa sociedade que não pode viver e fluir sem elas, mas que as agridem diariamente, o tempo vai passando e sendo escrito através dos olhos das mulheres.

Escrito por César Palatino

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Onde será que habita o coração de uma mulher?

Das amizades rompidas, e dos amores que não pude ter, talvez, nesse labirinto que separa o homem de sua realidade, compreender o universo feminino, continua sendo a tarefa mais árdua que um homem de equilíbrio saudável possa experimentar. A mulher carrega em seus olhos e na sua mente, talvez, os códigos mais secretos que a natureza lhe proporcionou, onde mesmo nem Alan Turing que se dedicasse a essa tarefa conseguiria decifrar. A mulher que atravessou séculos e até mesmo milênios a sombra do homem, sempre esteve posta a gerar e a mudar vidas humanas, onde perto dela estivesse inseridas. Não importa o tempo ou até mesmo a atenção que desferimos no coração de uma mulher, que sempre a qualquer momento, em um momento de falha, e novamente, você vai pensar onde será que habita ou estará o coração de uma mulher, nunca saberemos! Só nos resta continuar a viver, pois o que seria dos homens, se dentro do espaço que ele construiu ou que ele decidiu morar, não houvesse uma mulher para assim dar sentido aos seus dias de luta, que aqui sobre o planeta terra, ele, o homem ainda irá remoer por todos os dias, e ficará sempre a perguntar, onde será que habita o coração de uma mulher?

Irmão Trovão

Quando decidiu abandonar seu passado, e se entregar de corpo para uma nova vida, que assim dizia ser fruto de uma dádiva, irmão Trovão deixou a família e o apego que nós simples seres humanos temos aos bens materiais. Não sei o seu verdadeiro nome, nem ao menos o que o levou ao certo a se aventurar pelo o Nordeste do Brasil pregando o evangelho de Jesus Cristo, o judeu adorado na Europa cristã e admirado como profeta pelos os muçulmanos. Do Irmão Trovão, observei seu caminhar de forma simples pelas praias da Baía da Traição, terra dos índios potiguaras que há séculos resistem as mudanças que a vida os impõe, irmão Trovão dizem que segue as doutrinas de São Francisco de Assis, que nos tempos de adolescência também tinha os mesmos modos de vida, regada por aventuras e irrequieta aos padrões conservadores de nossa sociedade. Trovão mantém a mesma tradição dos religiosos jesuítas que aportaram por essas terras para catequizar os nativos, e ao seu ponto de vista lhes proporcionar a vida eterna. Trovão possui uma ideia que hoje em dia não é mais adotada entre os jovens do Brasil mais moderno, muitos o classificariam como louco, já que não é frade ordenado pela Igreja católica, apenas um missionário que deseja evangelizar e conquistar almas para Cristo, sua razão de viver e caminhar aqui na terra. Trovão que em Tupi seria “Tupã” se aproxima da cultura Potiguara de forma indireta, apesar que os atuais Potiguaras da Baía da Traição, Marcação, Rio Tinto e Mataraca já estão de certo modo civilizados, e apenas cultuam os deuses ameríndios de forma indireta, a verdadeira religião praticada na localidade é a mesma que veio através das naus portuguesas e imposta a ferro e fogo pelo fio da espada. Os índios ainda resistem através da manutenção e da proteção dada pelas leis brasileiras, e atrai pessoas como o irmão Trovão, que acreditam salvar vidas através de sua fé cristã, a mesma da Companhia de Jesus, que veio da Europa junto com os portugueses interessados nas riquesas do mundo novo escondida nas matas e no subsolo, transformando os nativos que viviam de forma anarquista ou socialista aos olhos dos antropólogos e sociólogos, em verdadeiros capitalistas sedentos pelo vil metal.

Nos perdemos com nossa razão

É estranho mas é verdade, as mulheres se apegam mais e esperam mais no amor que os homens, mas quando vão embora largam tudo e deixam para trás todas as lembranças que viveram, mesmo que essas lembranças a torture dia e noite, as mulheres talvez sejam e são as mais cruéis no amor. Os homens talves sejam meros coadjuvantes nessa experiência, ou muita das vezes afogam suas crises não resolvidas tentando fugir da realidade, em um copo de álcool etílico com um amigo mais próximo nos bares que sempre costumavam ir, ou talvez o homem possessivo tomado pela perda inesperada da falsa sensação de propriedade que imaginava ter, cometa feminicídio, com o único pensamento: “Se não és minha também não podes ser de mais ninguém.” A mulher vive o seu mundo imaginando um conto de fadas, se esse amor não deu certo, talvez ainda exista ainda um novo amor para continuar, e no fundo no andar dessa vida, somos todos coadjuvantes, esperamos demais em uma mudança de vida, a perda direta e a incerteza do futuro talvez seja a que mais dói.

Mitcha

Na bela cidade de nome São Petersburgo, nasceu Mitcha, a garota mais bela de toda essa localidade. Mitcha era a mais velha das várias crianças que habitavam a mesma casa no subúrbio da cidade. Ela sonhava com o mundo, e leu todos os clássicos da literatura russa, Dostoiévski e Leon Tolstoi, mas Mitcha era muito letrada na língua russa, e vez ou outra zombava de Pavel, seu amigo de Moscou que vez ou outra ia para São Petersburgo passar as férias e apreciar o Báltico congelado para os navios e os barcos dos pescadores e comerciantes, sempre ansiosos por mais dinheiro. Mitcha vez outra levava uma apanhava de sua mãe, por sair sozinha pelas imensas e sombrias ruas da cidade, Pavel, não era rico, mas tinha um sonho de sair da Rússia e estudar Direito na Alemanha, em Berlim uma das cidades mais importantes de toda a Europa, ele nutria um sentimento por Mitcha e demonstrava tudo por cartas, mas Mitcha era rebelde e não suportava viver sob o mesmo teto de um macho capacho como assim definia todos os homens, o inverno deixava vítimas a cada ano que chegava, o Czar Nicolau II já não tinha mais o controle do Império Russo, e uma grande frente vermelha se aproximava de locomotiva trazendo Lênin, Stálin e Trotsky. Mitcha queria apenas viver bem com sua família que ela tanto amava, Pavel, não se apegava a nada, talvez a solidão seja uma das marcas que sempre o deixou forte, e assim ele foi para Berlim, a guerra já tomava conta de toda Europa e se aproximava do fim, os tempos de monarquia chegava ao fim também na velha Rússia dos Czares, e Mitcha a moça humilde e rebelde, entrou para as fileiras do Exército Vermelho, acreditando que a partir daí poderia mudar a vida da família e dos pobres que sempre via por todas as ruas dos subúrbios da antiga São Petersburgo, agora nascida Petrogrado.

O último trem

Sim, ainda era primavera quando ela decidiu largar seu primeiro amor e conhecer novos mundos. Não pensou na consequência dessa empreitada, e simplesmente pegou o ultimo trem que partiu às 19:00 horas e resolveu sair de casa. Queria viver o que sempre quis, talvez estivesse cansada da vida e da rotina que amargava por quase uma década, ele um homem do campo, simplesmente aceitou a última partida dela com apenas uma lágrima que despontava de seus olhos, pois não podia fazer nada, não se pode e não se deve fazer nada quando uma pessoa quer ir embora. Ela pegou todas as roupas, as jóias e o dinheiro que guardava para partir para a cidade litorânea, e ele ficou com todas as lembranças dela cravadas nas paredes e no chão do lugar que tornou-se um imenso espaço vazio sem ela. E ela começou a trabalhar no shopping, começou a seguir uma vida nova, com novos amigos e novos lugares, conheceu uma nova pessoa que lhe prometeu o mundo, nessas palavras ela acreditou e se entregou como nunca havia se entregado antes, mas ele nunca gostou dela, e permaneceu no lugar apenas por uma temporada, quando ele resolveu partir ela se derramou em lágrimas, pois pensava que o amor que ele tinha prometido era eterno, e disse que ela era muito legal, mas dela queria apenas sua amizade. Ela percebeu que o ser humano usa de todos os meios para atingir um fim, e seguindo essa retórica, ela quis por fim em sua vida, porque da vida talvez ela não esperasse mais nada. E pensou no passado, e quanto era tão bom a vida simples do campo, os animais, a plantação e o seu primeiro amado que ela deixou ao pegar o último trem para a cidade. Ela quis voltar para o campo, e queria sua vida de volta, pois a cidade não era o que imaginava, a cidade possui mais cobras e escorpiões que o próprio campo, mas ele não a quis mais, e simplesmente removeu todas as lembranças das paredes e do lugar que ocupava a propriedade rural, pois seu coração já estava ocupado com a bela vizinha que usava trança, e morava mais ao sul dessa localidade, para ela, sobrou apenas o arrependimento e o desespero de ver toda sua vida terminar assim, para ela a vida a cada dia é um pequeno inferno.

A Perpetuação da Miséria

Os pobres são a massa falida do Estado. Quando o homem deixou o seu ego falar mais alto que seu olhar, passou a privatizar tudo que havia na natureza, e percebeu que poderia tirar vantagens a mais que seu oponente, talvez um extinto da natureza, para se destacar entre as mulheres e se proteger do frio e das estiagens, adquiriu mais grãos e peles, e quem perto dessa tribo ou comunidade não tivesse os mesmos bens, tiveram que se submeter aos avanços da época, homens para não passar fome tornaram-se servos, nascia aí a era da escravidão que também aumentava com a guerra entre os vizinhos, e os perdedores quando não eram abatidos seriam a nova massa de trabalho para produzir ao vencedor.

Assim nasceu a estrutura do capitalismo, milhares de anos se passaram e o homem sempre tentou se sobressair entre os homens, talvez o comunismo exista nas tribos indígenas da Amazônia que pouco a pouco está desaparecendo com o avanço dos fanáticos religiosos e com a destruição das florestas.

Quando Robspierre sonhou com a destituição da monarquia, viu que o sistema político parasitava há séculos nas entranhas do Estado, o luxo sobrevivia da fome e da morte da população francesa, mesma coisa com a monarquia russa que não resistiu ao levante vermelho.

A pobreza existe hoje em dia para perpetuar o poder e o luxo da sociedade rica, não importa qual ideologia você se submete, sua força de trabalho, suas forças e até sua mente existirão para servirem de colunas fragiladas de uma construção que não foi projetada para suportar muito peso.

E nesse meio a quem seja pobre, mas não se consente e nem ao menos tenta olhar para o lado, esperam e acreditam que venham um messias para varrer a corrupção, onde quase sempre ele está inserido, e decapte todos aqueles que de uma forma ou de outra nasceram pobres e herdaram todas essas moléstias do passado.