Crônica do cidadão de bem

Eu hoje acordei feliz, pois vi que a corrupção havia finalmente acabado, a mídia estava feliz, pois a caçada finalmente havia terminado. Hoje não haverá mais corrupção, e hoje realmente vi que ninguém está acima da lei, nesse país a lei sempre foi forte. Eu hoje posso me orgulhar dos juízes e do poder judiciário, pois vi o quanto são imparciais, o quanto não se embriagam com os holofotes apontados para eles, hoje, todos cidadãos de bem pode se sentir um membro de um país desenvolvido, pois aqui ninguém joga lixo no chão, aqui ninguém sonega imposto, e aqui todos amam o indivíduo diferente. Eu hoje acordei feliz, pois sei que meus filhos não vão ler Karl Marx na escola, aliás eu nem sei quem é mesmo Karl Marx, apenas ouço difamarem e dizerem coisas horrendas sobre ele, então deve ser o diabo em pessoa, eu hoje estou feliz, pois sei que meu país não será igual a Cuba sem saúde e educação, aliás eu nem sem mesmo como é a política interna de Cuba, pois assisto tudo pela Globo e leio tudo pela Veja, acho que sou um cidadão bem informado. Hoje estou feliz, pois meu sonho de ter uma arma não será mais ameaçada pelos os vermelhos, eu vou poder atirar em qualquer um que ouse olhar estranho para mim, ou ameaçar minha propriedade adquirida com meu suor quando trabalhava na prefeitura, eu hoje vou poder matar qualquer vagabundo que eu ver pelas ruas da cidade, pois eu terei minha arma e nenhum comunista vai me impedir de ter, ah esqueci, hoje é domingo, tenho que ir ao culto adorar a deus, pois deus é bom o tempo todo, e tudo que tenho foi deus que me deu, mas agora eu só quero comemorar a vitória de nosso país não ser transformado em uma União Soviética, um desses países que existe na atualidade, pois acima de tudo eu sou inteligente, não sou acéfalo como um esquerdista.

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Palavras do mundo

Eu procurei deus nas palavras e não o encontrei, então parei de procurá-lo nas palavras e então decidi procurá-lo nas pessoas, pois assim diziam que deus criou as pessoas a sua imagem e semelhança, fiquei assustado! pois vi que as pessoas o usam para justificar suas vontads, e vi que deus é uma metáfora, deus sempre foi uma metáfora, na minha opinião deus é a explicação mais inteligente para justificar o medo, o medo do desconhecido, o medo de nunca mais revermos nossos amigos e nossos familiares. É confortável saber que quem amamos em vida esteja nos aguardando ao lado de deus, e que diante dessa vida triste e pesada, deus está conosco e nunca nos abandonou, mas na realidade deus é isso, apenas isso, um conforto para nossos medos, um conforto para nossas mais tristes necessidades de amor.

Breakout: A noite dos pisicopatas

Quando faltou energia em nossa cidade, todas as pessoas ficaram em alerta, temiam o vizinho ao lado, temiam a todos que viam e caminhavam a sua frente, o medo não vinha apenas do bandido profissional mas também do chamado cidadão de bem. Na noite dos psicopatas parecia que tínhamos regredido aos tempos das cavernas, parecia que não estávamos mais na era digital, nessa noite até a depressão aparecia, em razão de nossas dependências tecnológicas e também da descoberta de quanto somos solitários. As mulheres temiam serem estupradas, e temiam também a segurança dos maridos e dos namorados. As crianças apenas olhavam para o céu noturno como nunca as viam visto antes, sem poluição luminosa, sem o vício desencadeado pelos celulares. Eu, também me preocupava com os meus, e também fiquei preocupado com toda a coletividade carente de segurança, nessa hora, muitos se aproveitavam para se apoderar da propriedade alheia, outros para expor sua libido nas ruas da cidade, e outros para colocar em prática a tão adiada vingança, na noite dos psicopatas nem a polícia dava conta de tanta ocorrência, até a elite ficou preocupada, pois nessa hora todos tem medo, nessa hora todos precisam do braço do Estado. Meu pai esperava notícia dos filhos, e minha mãe saía para ver a rua que se movimentava aos passos noturnos, ainda bem que nossa rua possui um traço de camaradagem imposta pelo o respeito, nessa hora, quando falta a polícia, todos se policiam tentando evitar a ação dos bandidos e dos psicopatas, o medo que se instaura vai além de nossas ruas, na noite dos psicopatas acho que os nossos sentimentos humanos desaparecem. O governo não se precaveu para evitar esse transtorno, o governo é o principal culpado desse caos, na noite dos psicopatas as taxas de homicídios e de criminalidade batem recordes, na noite dos psicopatas esperamos apenas que a energia volte e restaure a paz social que ela desestabilizou.

Blenda

Quando Blenda resolveu partir de casa, seus pais e o marido não podiam mais segurá-la. Queria sair pelo mundo, talvez ir para a Escócia, Holanda ou Dinamarca, queria sair de casa e fugir da solidão que vivia. Blenda conheceu o marido aos dezesseis anos de idade, no começo de tudo, ele era o mundo para ela, e ela também o mundo para ele. Mas no passar dos anos e afetados pela monotonia, a melancolia dessa vez resolveu pousar no coração de Blenda, até passados poucos anos andavam juntos pelas ruas e pelos bairros um agarrado ao outro, mas o tempo, esse cruel e monstro sagrado que a tudo transforma trouxe ao coração de Blenda a triste e cruel solidão, Blenda sempre esteve acompanhada mas de uns anos para cá alegava está sempre sozinha, cansada da monotonia e da solidão, Blenda jogou tudo para o espaço e deixou para traz Miguel e o seu pequenino coração, saiu para conhecer o mundo, onde o limite era sua vista junto a linha do horizonte, e o passaporte a vontade que ela tinha de se auto encontrar e também de escrever seu nome.

A luta continua

A luta continua, pois a luta não parou nas estepes da Rússia, das mães que exigiam pão e paz para seus filhos que pereciam aos olhares do regime Czarista. A luta continua e está manchada com o sangue das socialistas alemãs e com o sangue das inglesas que lutaram pela redução da carga horária de trabalho e por igualdade em direito ao voto. A luta continua, com todo o fogo e toda a cinza dos corpos carbonizados na fábrica Triangle shirtwaist em Nova York, a luta continua mesmo quando a legislação vai contra, e resiste ao esmagamento do patriarcalismo que agora em tempos de paz ressurge para atrasar o progresso. A luta continua por aquelas que morreram em campos de batalha para defender a liberdade de seu país e de seus filhos no Velho e Novo Continente, das mulheres que resistem aos estupros de seus corpos na Índia e no silêncio das casas por todas as cidades. A luta continua na resistência da pele negra de Rosa Parks e no fuzil de Lyudmila Pavilichenko, na empreitada por amor na caatinga de Maria Bonita, e na crítica social através de tinta a óleo eternizado nas telas de Frida Kahlo, e assim, todas elas resistem nessa sociedade que não pode viver e fluir sem elas, mas que as agridem diariamente, o tempo vai passando e sendo escrito através dos olhos das mulheres.

Escrito por César Palatino

Onde será que habita o coração de uma mulher?

Das amizades rompidas, e dos amores que não pude ter, talvez, nesse labirinto que separa o homem de sua realidade, compreender o universo feminino, continua sendo a tarefa mais árdua que um homem de equilíbrio saudável possa experimentar. A mulher carrega em seus olhos e na sua mente, talvez, os códigos mais secretos que a natureza lhe proporcionou, onde mesmo nem Alan Turing que se dedicasse a essa tarefa conseguiria decifrar. A mulher que atravessou séculos e até mesmo milênios a sombra do homem, sempre esteve posta a gerar e a mudar vidas humanas, onde perto dela estivesse inseridas. Não importa o tempo ou até mesmo a atenção que desferimos no coração de uma mulher, que sempre a qualquer momento, em um momento de falha, e novamente, você vai pensar onde será que habita ou estará o coração de uma mulher, nunca saberemos! Só nos resta continuar a viver, pois o que seria dos homens, se dentro do espaço que ele construiu ou que ele decidiu morar, não houvesse uma mulher para assim dar sentido aos seus dias de luta, que aqui sobre o planeta terra, ele, o homem ainda irá remoer por todos os dias, e ficará sempre a perguntar, onde será que habita o coração de uma mulher?

Irmão Trovão

Quando decidiu abandonar seu passado, e se entregar de corpo para uma nova vida, que assim dizia ser fruto de uma dádiva, irmão Trovão deixou a família e o apego que nós simples seres humanos temos aos bens materiais. Não sei o seu verdadeiro nome, nem ao menos o que o levou ao certo a se aventurar pelo o Nordeste do Brasil pregando o evangelho de Jesus Cristo, o judeu adorado na Europa cristã e admirado como profeta pelos os muçulmanos. Do Irmão Trovão, observei seu caminhar de forma simples pelas praias da Baía da Traição, terra dos índios potiguaras que há séculos resistem as mudanças que a vida os impõe, irmão Trovão dizem que segue as doutrinas de São Francisco de Assis, que nos tempos de adolescência também tinha os mesmos modos de vida, regada por aventuras e irrequieta aos padrões conservadores de nossa sociedade. Trovão mantém a mesma tradição dos religiosos jesuítas que aportaram por essas terras para catequizar os nativos, e ao seu ponto de vista lhes proporcionar a vida eterna. Trovão possui uma ideia que hoje em dia não é mais adotada entre os jovens do Brasil mais moderno, muitos o classificariam como louco, já que não é frade ordenado pela Igreja católica, apenas um missionário que deseja evangelizar e conquistar almas para Cristo, sua razão de viver e caminhar aqui na terra. Trovão que em Tupi seria “Tupã” se aproxima da cultura Potiguara de forma indireta, apesar que os atuais Potiguaras da Baía da Traição, Marcação, Rio Tinto e Mataraca já estão de certo modo civilizados, e apenas cultuam os deuses ameríndios de forma indireta, a verdadeira religião praticada na localidade é a mesma que veio através das naus portuguesas e imposta a ferro e fogo pelo fio da espada. Os índios ainda resistem através da manutenção e da proteção dada pelas leis brasileiras, e atrai pessoas como o irmão Trovão, que acreditam salvar vidas através de sua fé cristã, a mesma da Companhia de Jesus, que veio da Europa junto com os portugueses interessados nas riquesas do mundo novo escondida nas matas e no subsolo, transformando os nativos que viviam de forma anarquista ou socialista aos olhos dos antropólogos e sociólogos, em verdadeiros capitalistas sedentos pelo vil metal.